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Fissura

  • Foto do escritor: Curitiba Suburbana
    Curitiba Suburbana
  • 14 de jan. de 2021
  • 2 min de leitura

Por Wilson Ramos Filho (Xixo)



O presidente Trump tentou um golpe de estado. Incentivou seus seguidores mais, digamos, bolsonaristas, a invadirem o parlamento. Não atingiu os resultados que desejava. Talvez esperasse muito mais gente ou contasse com a adesão de parte das forças armadas. Algo deu errado, como observou Jorge Normando Rodrigues (https://sindipetronf.org.br/nascente-1172/).

Depois de articular a reação popular por intermédio das redes sociais, de se assegurar que as forças de segurança fariam corpo mole, de pedir que a turba invadisse o Capitólio, quando tudo deu errado, traindo seus apoiadores, condenou protocolarmente o ato que causou cinco mortes.

As instituições reagiram. Passa de sete dezenas o número de pessoas presas e processadas judicialmente. A Câmara dos deputados abriu um processo de impeachment, a imprensa qualificou como terrorismo a tresloucada invasão que pretendia transformar os EUA em uma república bananeira.

Uma punição exemplar dos golpistas parece estar em gestação.

Todavia, os resultados eleitorais indicam uma divisão sem precedentes na sociedade estadunidense. Mais de setenta milhões de cidadãos americanos votaram em Trump apesar de seu desastroso governo, de sua temerária gestão da pandemia, com mais de quatro mil mortes diárias, e dos disparates verbalizados ao longo dos últimos quatro anos.

Mais preocupante, todavia, é o crescimento de centenas de grupos de extrema-direita por todo o país, muitos deles armados.

Merece atenção mundial, em especial, uma militante chamada Candace Owens, com milhares de seguidores. Negra, mulher (https://www.facebook.com/1215068132/posts/10219177461006768/), essa extremista pretende ser a voz conservadora estadunidense.

Prestem atenção ao seu discurso. É chocante.

Aqui no Brasil o jaguara que ocupa a presidência, com características gerais muito semelhantes às de Trump, não perdeu tempo e já antecipou que tentará um golpe semelhante se não for reeleito. Contudo, nossas instituições não esboçaram reação. O judiciário e legislativo mais uma vez minimizaram a ameaça bolsonarista e a mídia não reagiu como se esperava em um país que se pretende democrático. O ideário de extrema-direita contaminou nossas instituições desde o golpe de 2016, com louváveis exceções.

Os desmiolados da extrema-direita no Brasil não diferem nada de seus pares estadunidenses. As forças públicas de segurança (Exército, PM, PF, polícias civis e guardas metropolitanas) e as milícias armadas de Pindorama são intrinsecamente bolsonaristas.

Votaram neste horror 57 milhões de brasileiros e, apesar do desastre econômico, ambiental, sanitário e humano, pesquisas indicam, nada nos leva a crer que Bolsonaro não esteja no segundo turno das eleições de 2022.

A ameaça de golpe, caso seja derrotado no segundo turno, não pode ser ignorada. A questão é séria e é grave. Tanto quanto a estadunidense, a sociedade brasileira está dividida, fissurada.

A sociedade brasileira precisa reagir agora. Não podemos correr o risco de esperar as próximas eleições. A extrema-direita ocupa boa parte do aparato estatal, as igrejas aderiram à maneira bolsonara de existir em sociedade, os meios de comunicação, apesar de diariamente insultados, seguem tolerando e apoiando as políticas austericidas do governo, e as redes sociais, como nos EUA, continuam muito ativas divulgando fake-news e conformando consensos de extrema-direita.

Se não conseguirmos nos livrar imediatamente de Bolsonaro viveremos outro golpe em 2022. Não respeitarão o resultado das urnas, prometem. As instituições estadunidenses reagiram à tentativa de transformar os EUA em uma república bananeira. E as nossas?


Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, preside o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.



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